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the book keeper

06
Fev17

Meio Sol Amarelo

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Ilustração: bauhaus.com

 

"1. O Livro: O Mundo Ficou Calado Quando Morremos

No prólogo, ele relata a história da mulher com a cabaça. Estava sentada no chão de um comboio, entalada entre pessoas a chorar, pessoas a gritar, pessoas a rezar. Estava calada, a acariciar no seu colo a cabaça tapada, num ritmo suave, até que atravessaram o Níger e ela levantou a tampa e disse a Olanna e aos outros para espreitarem lá para dentro. Olanna conta-lhe esta história e ele anota os pormenores. Ela explica-lhe que as nódoas de sangue no pano da mulher se fundiam com o tecido formando um padrão de cor de malva ferrugento. Descreve os desenhos talhados na cabaça da mulher, linhas diagonais entrecruzadas, e descreve a cabeça da criança lá dentro: tranças despenteadas caindo sobre o rosto castanho-escuro, olhos completamente brancos, fantasmagoricamente arregalados, a boca entreaberta num pequeno O de surpresa.”

 

Ler o Meio Sol Amarelo da brilhante Chimamanda Ngozi Adichie é perceber que não sabemos nada, que os nossos problemas não são nada, quando atrocidades como as que foram cometidas contra o povo Ibo na Nigéria aconteceram enquanto o mundo assistia mudo e quedo. Eu não conhecia a história do Biafra, o horror da Guerra do Biafra e por muito que seja mais fácil fecharmos os olhos e ignorarmos o sofrimento há coisas que temos de saber para que não se repitam. Para que façamos algo. 

A autora, de descendência Ibo, nascida em Abba e estudante em Nsukka, usa toda a sua história familiar para descrever de forma absolutamente brilhante uma situação que foi ignorada por todas as nações desenvolvidas, inclusive pelo grande colonizador britânico. E isto tem especial relevância porque aos britânicos não interessava o progresso vislumbrado no desenvolvimento do povo Ibo. Todas as classes sociais são abordadas e incluídas no livro que narra de forma fiel esta guerra desleal. Até os líderes do Biafra falharam. Falharam de forma vergonhosa ao povo que depositou toda a sua fé e esperança no meio sol amarelo. Leiam. A sério. 

10
Set16

A Cor do Hibisco

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Ilustração: Meredith Pardue

 

“Percebi então que era precisamente isso que a Tia Ifeoma fazia com os meus primos: colocar-lhes a barra cada vez mais alto através da maneira como falava com eles, através do que esperava deles. Fazia-o sempre com a convicção de que saltariam por cima da barra. E eles saltavam. Comigo e com o Jaja era diferente: não saltávamos por cima da barra por estarmos convencidos de que éramos capazes, fazíamo-lo porque tínhamos pavor de não conseguir.”

 

A Chimamanda Ngozi Adichie é uma extraordinária contadora de histórias. A Cor do Hibisco conta-nos a história de Kambili e Jajadois irmãos filhos de um típico homem grande da Nigéria, que entre outras particularidades é extremamente religioso, a um nível muito próximo da loucura e obsessão religiosa. A primeira parte da história é pautada pelo silêncio, pela repressão, pelo medo que se vive na casa onde Kambili, Jaja e a sua mãe, Beatrice, vivem “em bicos dos pés” tentando não pisar os sensíveis calos de Eugene. A escritora é mestra em descrever a situação familiar onde tantas vezes se confunde violência com dedicação e preocupação, e onde a falta de auto estima faz com que práticas de verdadeiro horror se tornem aceitáveis. Muitas vezes me senti a deixar de respirar, a temer que o pai deles aparecesse, tal é o poder das descrições.  O segundo momento da história é desencadeado pelo aparecimento da Tia Ifeoma, uma mulher independente, viúva, cuja abordagem educativa dos próprios filhos é completamente oposta à do irmão. Este novo tipo de vivência desperta nos dois irmãos uma total perplexidade que rapidamente se transforma em algo confortável e posteriormente desencadeia a revolta e o confronto. Como pano de fundo a escritora descreve um golpe de estado na Nigéria e todos os acontecimentos que dele derivam. Os subornos, a falta de condições de vida, as manifestações de estudantes… Mas centramo-nos no crescimento destas duas personagens, que aprendem a olhar para os outros para se descobrirem a si mesmos, como botões de hibisco que se abrem para receber o sol. É sem dúvida uma história maravilhosa pelo pulso da talentosa Chimamanda Ngozi Adichie.