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the book keeper

26
Mar17

Nem todas as baleias voam

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 Pattern: Minakani

 

"Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista exímio, apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria."

 

Este foi o meu primeiro contacto com Afonso Cruz e arrisco dizer que poderá ter sido amor à primeira vista. Através de Erik Gould e do seu filho Tristan, o autor consegue dizer o indizível. Talvez por isso me seja tão díficil escrever sobre este livro. Porque não tenho o mesmo dom. Através da sinestesia, da música e da memória, o autor explora os sentimentos e laços entre seres humanos, em diferentes fases da sua vida. Mais do que o pai, capaz de pintar retratos com notas de música, fiquei fascinada com o pequeno Tristan e os seus companheiros. Aqueles que nos acompanham todos os dias, mas que não conseguimos ver. É também profundamente tocante a forma com descreve a experiência do pós-guerra e das dores fantasma que os ex-combatentes levam consigo. E como explora o acto da criação, na figura de um psicopata sádico e perturbado. Não é um livro fácil. Senti-o como uma pintura abstracta, à qual vamos acrescentando pormenores sempre que a olhamos, uma e outra vez. Não pode ser apreendida à primeira. Porque é complexa. Como as pessoas e os sentimentos entre elas. 

 

Para terminar deixo-vos o meu excerto favorito:

 

"Até onde podemos esticar o amor? Até à pele do outro ou mais longe? Será possível que atravesse o tempo, o espaço, que voe por cima do deserto jordano e atravesse o Índico e suba o Hindukush e penetre na boca do Vesúvio, será possível que se estenda para lá da vida, que voe pelo cosmos como aqueles cometas solitários que deambulam milhões de anos numa solidão infinita e silenciosa? Talvez seja isso tudo, e mais ainda, talvez seja possível enfiá-lo numa garrafa e atirá-lo ao mar para que navegue até ao destino, que é a espinha do amor, que é o que o faz mover." 

 

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